Sustentabilidade em xeque

O setor de saúde foi praticamente o único a encerrar o ano de 2015 com saldo positivo e consistente de geração de empregos, totalizando 53 mil novos postos – a outra exceção foi o setor de educação, que obteve ligeiro resultado positivo, com 1.500 novas vagas. No País como um todo, foram fechados 1,5 milhão de empregos no mesmo período.

O resultado positivo do setor de saúde não surpreende, uma vez que, desde 2011, início da série consolidada pela Abramge, o setor incorporou até 2014 rigorosamente cerca de 100 mil novos trabalhadores por ano no regime de contratação CLT, se tornando um dos principais empregadores do País.

Atualmente, ocupa o 6º lugar no que se refere à empregabilidade, atrás apenas do comércio, agropecuária, indústria, administração pública e construção civil. São mais de 6 milhões de pessoas trabalhando em 286 mil estabelecimentos que prestam serviços de saúde à população, entre eles: 6.152 hospitais gerais e especializados, mais de 21 mil laboratórios (Serviço Auxiliar de Diagnóstico e Terapia – SADT), 40 mil clínicas especializadas, 1.187 operadoras de planos de saúde, além de milhares de centros clínicos, policlínicas, consultórios etc.

A despeito disso, se por um lado o crescimento do setor traz aumento de emprego, de renda e de bem-estar, por outro a dificuldade em encontrar mão de obra qualificada limita o avanço. Além disso, não só os recém-contratados precisam de treinamento, mas os trabalhadores que já atuam no setor também necessitam de constantes reciclagens, para adaptá-los a novos processos e tecnologias.

Em decorrência da falta de centros de formação profissional que comporte o crescimento do setor, grandes instituições hospitalares investiram em centros de treinamento próprios, capacitando principalmente a mão de obra recém-contratada. Mas essa é a realidade de poucas instituições, que teriam recursos suficientes para criar estes centros, enquanto a grande maioria dos estabelecimentos ainda depende da formação da força de trabalho por instituições como universidades e centros técnicos de formação.

Segundo informações de junho de 2015 do programa “Compromisso com a Qualidade Hospitalar – CQH”, apurado para os 54 hospitais participantes da pesquisa, a instituição que mais treinou e capacitou, com um total de 40 horas/homem para cada 1 mil horas trabalhadas, alcançou índice que é duas mil vezes maior do que o apurado para o hospital que obteve o menor indicador (0,02 hora/homem para cada 1 mil horas trabalhadas). A discrepância revela que há uma importante diferença no investimento em qualificação de pessoal entre as instituições, o que deve se repetir também entre as regiões do País.

Por outro lado, o investimento em centros de formação profissional especializados na área de saúde poderia mitigar o problema, aumentando a oferta de mão de obra qualificada e aperfeiçoando a prestação de serviços de saúde. Entretanto, para financiar este investimento, é preciso ter fonte de recursos.

Nesse sentido, o Sistema “S” da Saúde pode se consolidar como mecanismo e fonte de recurso fundamental para estimular o investimento em qualificação. A iniciativa é uma aspiração antiga do setor, que já foi apresentada pelo menos em três oportunidades no Congresso Nacional. A primeira delas com o PLS no 131/01 e a segunda com o PL no 844/07. Atualmente, o tema voltou a ser discutido com o PL no 559 de 2015.

O estímulo a projetos e ações que promovam a formação e qualificação de profissionais, tornando-os aptos às novas tecnologias e novas demandas de saúde da sociedade, não só contribuirá para o aumento da oferta de mão de obra qualificada e crescimento do setor, mas também diretamente para o aumento da produtividade e competitividade de todo o sistema de saúde brasileiro.

 

Marcos Paulo Novais - Economista-chefe do Sistema Abramge/Sinamge/Sinog

 

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