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Perda de usuários diminui, mas custos altos desafiam convênios

Fonte: Folha de S. Paulo - 25/11/2017

Setor quer mudança na remuneração de médicos e mais debate sobre cobertura mínima

Por Alessandra Milanez
Dependente do mercado de trabalho formal, o setor de saúde suplementar viu sua base de beneficiários encolher 6% do fim de 2014 até setembro deste ano. Ao todo, 3 milhões de pessoas deixaram de contar com um plano de saúde. Não por acaso, o país eliminou 3,5 milhões de postos de trabalho no mesmo período, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Apenas em 2016, o saldo de empregos formais foi negativo em 1,32 milhão, de acordo com dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). Enquanto isso, 1,5 milhão de pessoas ficou sem plano de saúde, segundo a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). Desse total, 1 milhão (68,2%) era de planos coletivos empresariais, aqueles fornecidos pelas empresas a seus funcionários.

Em 2017, o cenário é um pouco diferente, afirma Luiz Augusto Carneiro, superintendente-executivo do Iess (Instituto de Estudos de Saúde Suplementar). O instituto aponta que foram rompidos 624,6 mil vínculos com planos médico-hospitalares entre setembro de 2017 e o mesmo mês do ano passado.

Ainda que represente uma retração de 1,3% no total de beneficiários, o número mostra redução no ritmo de rompimentos de vínculos, que estava em 3,1% em dezembro de 2016. Além disso, o saldo de empregos está positivo em 208,8 mil postos entre janeiro e setembro deste ano.

Juliana Lima, 36, faz parte do contingente de pessoas que perderam o emprego e se viram sem plano de saúde. Formada em publicidade e com duas pós-graduações, trabalhava como analista comercial numa empresa que oferecia um plano de saúde de primeira linha. Com a crise econômica, ela foi demitida no ano passado. Sofreu uma queda na rua e rompeu os ligamentos. Sem plano de saúde, teve que arcar com os custos do tratamento.

Agora está num trabalho no qual ganha menos e que não oferece plano. Sofre de depressão, e seu pai pagará um convênio para ela. "Não tenho dinheiro para consulta nem para remédio", diz.

RETOMADA
Para que o cenário de saúde suplementar seja mais positivo, diz Carneiro, do Iess, a retomada da economia deve estar apoiada em setores que historicamente oferecem plano de saúde a seus funcionários, como a indústria.

"Há um crescimento do mercado informal, o que não contribui para o setor de saúde suplementar, já que um trabalhador sem carteira assinada não recebe benefícios e, sem a segurança do vínculo empregatício, as famílias demoram mais para retomar o contrato com o plano, por medo de não conseguir manter os pagamentos", afirma.

Os desafios do setor não se limitam, porém, ao enfraquecimento da economia.

Pedro Ramos, diretor da Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde), afirma que pesam também os altos custos. São eles: a inflação médica, mais alta do que a inflação geral; a inclusão de novos procedimentos no rol de cobertura obrigatória; os ressarcimentos cobrados pela ANS de clientes de planos que usam o SUS; as fraudes contra os planos; a mudança na forma de remuneração de médicos e hospitais, que paga por procedimento e estimula excessos; e as regras para os planos coletivos, que proíbem o reajuste para quem tem acima dos 59 anos.

Ramos afirma que a inflação médica é mais alta do que a inflação geral no mundo todo. Na Europa, por exemplo, a inflação médica subiu 5,9% no ano passado, enquanto a inflação geral foi 1,6%, segundo a consultoria Aon.

No Brasil, a variação dos custos Médico-Hospitalares em 2016 foi 20,4%, já o IPCA (índice usado como medida de inflação) subiu 6,3%.

GASTOS

Os custos da saúde estão, portanto, no foco do debate. Para Ramos, a forma de remuneração do setor, que hoje é por atendimento ou procedimento, estimula abusos.

"A OMS [Organização Mundial da Saúde] diz que são necessários 52 exames de tomografia para cada grupo de mil habitantes. No Brasil são feitos 132 exames na mesma comparação. Isso faz mal não só para a indústria, como para o ser humano", afirma.

Em janeiro de 2018 entrará em vigor a nova cobertura mínima dos planos de saúde determinada pela ANS. Serão 18 novos procedimentos obrigatórios. Ramos defende que a inclusão de novos procedimentos seja discutida de forma mais profunda. "Quando se passa a ter direito a mais alguma coisa, alguém vai pagar, e quem vai pagar é o consumidor", afirma. "Por isso, um direito a mais às vezes é um direito a menos."

 

Inovação sem critério eleva custo do sistema de planos de saúde

Fonte: Folha de S. Paulo - 25/11/2017

Falta de estudos para a incorporação de novas tecnologias afeta despesas da saúde e mensalidade dos planos

Por Karina Pastore
Doenças tidas como incuráveis até outro dia são hoje descobertas antes de seu aparecimento. Medicamentos podem atingir alvos específicos. Cirurgias abertas são substituídas por procedimentos minimamente invasivos.

Tais progressos tornam as medidas preventivas mais poderosas; os diagnósticos, mais certeiros, e os tratamentos, mais seguros e rápidos.

Mas a incorporação tecnológica em saúde tem um preço, e alto. Não à toa está entre os fatores mais determinantes do encarecimento da medicina. "A inserção de procedimentos não decorre da substituição de outros já existentes", diz José Cechin, gerente-geral da FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar).

Uma nova tecnologia da computação, por exemplo, costuma cair na obsolescência dois anos depois do lançamento, quando seu preço é reduzido à metade. Na medicina, as inovações não são substitutivas, mas incrementais. A cirurgia para desobstrução das artérias coronárias não deixou de ser feita com a popularização da angioplastia. Tampouco o raio-x foi substituído por tomografia ou ressonância magnética.

Outra especificidade do mercado da saúde é o fato de que, na maioria dos casos, uma inovação mais efetiva é também mais cara.

O médico Stephen Stefani, oncologista do Hospital do Câncer Mãe de Deus, em Porto Alegre, e integrante da Sociedade Internacional de Farmacoeconomia e Estudos de Desfecho, estima que a inclusão apenas do item "novos remédios" na lista das operadoras gere um aumento anual de pelo menos 2% sobre o valor da mensalidade.

Os brasileiros gastam todo mês, em média, R$ 740,84 nos planos individuais e R$ 502,28 nos coletivos, segundo a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). "As operadoras são as principais responsáveis por modernizar a saúde no país", diz Reinaldo Scheibe, presidente da Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde).

Os convênios respondem por 95% da receita dos hospitais brasileiros de ponta, onde está o que há de mais moderno em tecnologia médica. Em 2016, foram R$ 137 bilhões com o pagamento de serviços de assistência à saúde de seus beneficiários.

Para que uma inovação médica seja incorporada pelos planos de saúde, ela deve entrar no Rol de Procedimentos e Eventos. Definido pela ANS e atualizado a cada dois anos (o próximo entra em vigor em 2018), o documento determina a cobertura mínima que cada operadora deve oferecer a seus usuários.

"Diferentemente do que acontece no sistema público, as novas tecnologias são adicionadas à saúde suplementar sem critérios claros, que sejam baseados em estudos de custo-efetividade e capacidade do sistema de suportar esses incrementos", afirma Luiz Augusto Carneiro, superintendente executivo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar. Em países como Inglaterra, Suécia, Japão e Austrália, novas tecnologias só são incorporadas após essas pesquisas.

Segundo a ANS, a escolha de novas terapias é feita após reuniões de representantes do governo, dos planos de saúde e dos consumidores.

A falta de transparência encarece ainda mais o custo da medicina. E contribui para a crescente judicialização da saúde, diz o médico César Luiz Abicalaffe, especializado em economia da saúde.

Um país como o Brasil, que propõe um sistema universal de saúde, deve ter bem definida a relação de custo-benefício para a adoção de um remédio ou de um tratamento recém-lançado. Um dos parâmetros mais usados internacionalmente é o que prevê o gasto de US$ 50 mil por ano de vida salvo.

"É preciso definir quanto uma determinada tecnologia modifica o desfecho", diz o oncologista Stefani. Um artigo na edição de setembro passado na revista científica "Nature" mostra que, de 277 medicamentos para o combate do câncer avaliados em estudos clínicos entre 2011 e 2015, 15% repercutiam em ganhos efetivos para os doentes. Eles não apenas viviam mais, mas também tinham melhor qualidade de vida.

Presente no rol da ANS, o dabrafenibe, para melanoma metastático ou irressecável, pertence à categoria das terapias-alvo, uma das frentes mais modernas para o tratamento do câncer. Em combinação com outro medicamento, ele inibe a ação da proteína BRAF, envolvida na multiplicação celular.

Um dos trabalhos mais importantes com o remédio indica que, para 76% dos pacientes, a evolução da doença foi contida durante 10,6 meses. Entre os doentes que não tomaram o dabrafenibe, 54% registraram queda no ritmo de progressão do câncer por cinco ou seis meses. Cinco meses de diferença na velocidade de disseminação das células tumorais, sem que isso represente sobrevida maior. O custo de uma nova terapia em câncer sai, em média, US$ 10 mil por mês.

 

Saiba como funcionam os convênios médicos em outros países

Fonte: Folha de S. Paulo - 25/11/2017

Na França, por exemplo, empresa só pode vender o que a rede pública não oferece

Por Jacqueline Lattari
Países com sistemas de saúde similares ao brasileiro só permitem que empresas privadas ofereçam serviços suplementares, que não concorrem com a rede pública – ao contrário do que ocorre aqui.

No Reino Unido, na França, na Espanha, em Portugal e no Canadá, convênios só vendem aquilo de que o sistema público não dispõe. Uma empresa não pode vender cirurgia cardíaca se isso é oferecido pelo sistema.

Como no modelo de transplante de órgãos no Brasil, todos estão sujeitos à fila de espera, compara o professor Álvaro Escrivão Jr., coordenador-adjunto do Centro de Estudos em Planejamento e Gestão em Saúde da Fundação Getúlio Vargas.

"No Reino Unido é assim. Ninguém pode falar: eu tenho dinheiro, vou furar a fila, ser atendido primeiro, ser melhor atendido. Não, todos serão atendidos da mesma forma. A ideia de sistema universal é essa", diz.

No Brasil, o sistema suplementar concorre com o SUS, uma das maiores redes do mundo. "Com todas as dificuldades que o Brasil enfrenta, o SUS é um modelo admirável, mas precisa de aperfeiçoamento", opina Pedro Ramos, diretor da Abramge, entidade dos planos de saúde.

Nos EUA, o sistema é privado e segmentar -com várias modalidades. Quem não pode pagar tem o plano subsidiado pelo governo. O Medicare é destinado a pessoas com 65 anos ou mais e a portadoras de deficiência.

Alemanha, Austrália, Chile e Colômbia têm um seguro do Estado, gerido por operadoras de planos de saúde, que cobre a totalidade ou quase toda a população. O financiamento é feito por impostos ou contribuições de empregadores e empregados.

Nesse modelo, a pessoa tem acesso a uma cobertura mínima, mas pode adquirir coberturas adicionais ou melhorias do padrão do plano.

Na Austrália, a cobertura é universal e não há sobreposição de sistemas. Metade da população é coberta pelo seguro médico público, gerido por operadoras do governo e privadas. A outra metade é coberta só por planos privados. O beneficiário pode escolher entre o programa público e o privado. Se escolher o privado, o Estado estorna anualmente até 35% do valor pago em contraprestação do plano, para incentivar a migração para planos particulares. Quem tem renda alta e não contrata plano privado é taxado em até 1,5% da renda.

No Chile, a cobertura também é universal e não há sobreposição de sistemas. O usuário escolhe se quer ser atendido pelo sistema público ou privado. Se escolher o público, não poderá usar o privado e vice-versa. 

 

 

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