Principais ações para controlar custos com saúde são a inclusão dos funcionários no pagamento das despesas, troca de convênio e programas de prevenção

Fonte: Valor Econômico Setorial Saúde - Junho de 2019

Por Gleise de Castro

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Manter o plano de saúde dos funcionários tornou-se um desafio para as empresas. Em um cenário de depressão econômica, com inflação estacionada na faixa de 4%, ficaram insustentáveis os reajustes anuais de dois dígitos dos convênios médicos empresariais. Levantamento da consultoria Mercer Marsh Benefícios mostra que o custo médio dos planos por trabalhador cresceu 149,5% entre 2012 e 2019, enquanto a inflação do período, medida pelo índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), ficou em 64,1%.

Para conter os custos, grandes empresas estão adotando programas de controle de gastos com saúde. Segundo a pesquisa, 94% das empresas consultadas relataram mudanças em seu programa de benefícios de saúde. Foram ouvidas 611 empresas, 60% das quais multinacionais, com faturamento acima de R$ 100 milhões e um total de 1,5 milhão de pessoas.

No curto prazo, as principais medidas foram o redesenho dos planos, com inclusão da coparticipação dos funcionários no pagamento das despesas, troca de categoria do convênio e preferência por operadoras com rede própria de atendimento. Entre as ações de longo prazo, predominam programas de prevenção e promoção da saúde. Do total consultado, 34% disse ter feito algum investimento em saúde e bem-estar nos últimos dois anos e 40% planeja aumentar esses aportes nos próximos 24 meses.

Entre 2017 e 2019, o valor anual investido por trabalhador nesses programas cresceu 19%, de R$ 271,21 para R$ 322,66. "As empresas procuram entender por que os funcionários usam o plano, para saber o que fazer para melhorar a sua saúde. O funcionário doente também causa grande impacto nos custos", diz Mariana Dias Lucon, diretora de produtos da Mercer Marsh.

17 01Antes restrito à esfera gerencial, o tema passa a ser tratado pelas lideranças da empresa, em conjunto com áreas como alimentação, para melhorar os hábitos dos funcionários e prevenir problemas futuros. "O problema é complexo e tem muitas nuances, mas a empresa tem como influenciar na redução dos custos, através de gestão", diz Luiz Edmundo Rosa, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH). Ao administrar melhor seus riscos, reduzindo a sinistralidade, as empresas conseguem negociar preços menores com as operadoras. "Quanto melhor a gestão, menor a correção do plano."

Levantamento feito emjunho pela ABRH com o grupo de 19 grandes empresas reunidas no Fórum Nacional de Saúde Corporativa mostra reduções expressivas. Quatro delas conseguiram baixar os custos para menos de 5% ao ano, enquanto a inflação médica deste ano pode atingir, segundo analistas, até 17%.

Criado há quase dois anos, em conjunto com a ABRH e a Aliança pela Saúde Populacional (Asap), esse grupo conta com empresas como ltaú, Petrobras, Johnson & Johnson, Pirelli e Sherwin-Williams, que buscam reduzir os custos com saúde empresarial.

Muitas das medidas adotadas não envolvem grandes investimentos, como demonstra um guia sobre gestão de custos corporativos de saúde, lançado em março pelo Fórum. Entre as recomendações estão fazer um levantamento das condições de saúde dos funcionários antes de definir ações e programas, evitar o desperdício com consultas, exames e procedimentos desnecessários e criar políticas de saúde que promovam estilos de vida saudáveis e iniciativas preventivas a funcionários e dependentes. O documento também sugere a criação de comitês de saúde, integrando RH, operações, financeiro e suprimentos, para gerir os investimentos nessa área.

"A questão é maior do que só o custo do plano. As empresas devem olhar a saúde do colaborador de maneira estratégica", diz Jorge Carvalho, sócio-diretor da consultoria HealthCO. A seu ver, as empresas estão entendendo que a saúde dos colaboradores é problema delas, porque, além do custo do convênio, problemas nessa área refletem-se no absenteísmo e na produtividade. Muitas vezes, diz o consultor, medidas simples podem ser eficazes, como campanhas internas de vacinação contra gripe, que evitam o afastamento do trabalho.

A pressão de custos vem também dos preços de exames, que afetam empresas e operadoras. Pesquisa da corretora lt'sSeg aponta variações de até 1.309,42%, caso do exame de colesterol total. Foram mapeadas 113 redes de laboratórios e seis diferentes exames mais pedidos pelos médicos, entre agosto de 2015 e julho de 2018, com base em dados de dez grandes clientes da corretora, com 20 mil vicias. "Tecnologia, localização, marca, qualidade e conforto justificam preços maiores. Mas diferenças tão grandes são aberração", diz Thomas Menezes, CEO da lt'sSeg. Para ele, o plano tem que se certificar de que está negociando os melhores custos possíveis com os fornecedores, enquanto os usuários devem ser esclarecidos sobre sua responsabilidade na utilização dos serviços, evitando gastos como o uso desnecessário de prontos-socorros.

As operadoras enfrentam igualmente custos elevados. Segundo Marcos Novais, economista-chefe da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), o reajuste dos planos corresponde à correção necessária em relação ao aumento passado e à projeção para o novo ano. "Se não fizer isso, a corretora quebra em pouco tempo." Todas têm interesse em preço menor, diz. A operadora que opera com preço mais elevado tem menor capacidade de conquistar clientes. Entre 2014 e 2017, os planos perderam cerca de três milhões de usuários e contam hoje com uma base de 47 milhões de pessoas. Apesar disso, o número de exames cresceu 15%; o de internações, 5%; e o de terapias, 37%. No mesmo período, os preços subiram.

Com um conjunto de programas preventivos, a Bosch conseguiu diminuir os níveis de absenteísmo por motivo de saúde e a sinistralidade do convênio. Com isso, tem obtido reduções de 1O a 15 pontos percentuais nos preços dos planos de quatro operadoras que atendem seus 8,3 mil funcionários e dependentes em 13 unidades no país. Os resultados foram sentidos em outras frentes, como na segurança do trabalho. A empresa criou um comitê de saúde e fez convênio com empresa especializada para acompanhar problemas crônicos, entre outras medidas. "Nosso objetivo é melhorar a saúde das pessoas e da empresa. É preciso uma atuação planejada e contínua", diz Fernando Tourinho, diretor de RH da Bosch.

A estratégia da Scania, centrada em prevenção e cuidados individualizados, resultou em queda de cerca de 20% na sinistralidade nos últimos três anos. Em 2016, a empresa trocou um plano de autogestão por um convênio de mercado, associado a programas próprios. Entre eles, o atendimento em um ambulatório na fábrica de São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista, que conta com clínicos gerais e especialistas, centro de fisioterapia e laboratório para coleta de exames de análises clínicas, além de convênios com clínicas na região para evitar o uso de prontos-socorros. Os programas beneficiam seus 4,5 mil funcionários, 6,3 mil dependentes e 2,1 mil ex-funcionários aposentados.

Desde janeiro, a empresa conta com um plano desenhado para seu perfil, que permitiu evitar um aumento extra de 10% nos gastos com saúde. "O objetivo é reduzir a sinistralidade para termos condição de negociar com as operadoras", afirma Danilo Rocha, vice-presidente de recursos humanos e serviços da Scania Latin America.

Ante aumentos de até 20% no plano de saúde, a Biolab adotou, a partir de 2015, medidas de gestão para continuar oferecendo o benefício a seus sete mil funcionários. O plano pré-pago foi trocado pelo pós-pago administrado pela empresa, que montou um sistema com ações de prevenção e orientação do funcionário e coparticipação de 30%. Segundo Alexandre Iglesias, diretor financeiro da empresa, o valor pago hoje é 30% a 40% menor do que pagaria com aumentos anuais de 20%. "O primeiro passo foi sensibilizar o colaborador sobre os custos", diz Luciana Lourenço, superintendente de RH e responsabilidade social da Biolab. "A atuação precisa ser perene, para garantir o mesmo custo e qualidade."

Com um sistema centrado em medidas de prevenção, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo, conseguiu reduzir os riscos relacionados à saúde dos funcionários. No caso de hipertensão, a queda foi de 30%; nos associados a colesterol alto, de 20%; e nos ligados a tabagismo chegou a 43%, entre 2010 e 2018.

"O resultado foi a redução da sinistralidade e a saída de um plano pré-pago para outro pós-pago administrado pelo hospital", diz o médico Luiz Henrique de Almeida Mota, diretor-executivo da unidade Oswaldo Cruz Vergueiro. O programa Bem Estar inclui serviços como medicina preventiva, gestão de doenças crônicas e acompanhamento com equipe interdisciplinar.

 

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