Fonte: Revista Cobertura Mercado de Seguros - 01/08/2016

Várias questões implicam na sua sustentabilidade, que vão desde o modelo assistencial, de pagamento, até sua utilização

Por Karin Fuchs

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O cenário para a saúde suplementar é o mais antagônico. Enquanto a medicina avança com novos tratamentos e tecnologias, mais 21 coberturas e procedimentos obrigatórios passaram a fazer parte do Rol da Agência de Saúde Suplementar (ANS) neste ano. O Brasil amarga crescimento na taxa de desemprego e, consequentemente, redução do número de beneficiários, aumento da taxa de sinistralidade e menor receita para o setor.

Segundo Solange Beatriz Palheiro Mendes, presidente da FenaSaúde, “novas coberturas acrescentadas ao Rol sempre impactarão nos custos e nas mensalidades dos seguros e planos de saúde, mas não é possível mensurar os efeitos antes de pelo menos um ano de incorporação”, afirma, defendendo que é preciso que haja mudanças na metodologia de incorporação tecnológica.

“De forma mais realista, já que nem todos os novos exames e tratamentos incluídos passariam pelo crivo do custo-efetividade na avaliação econômica de tecnologias incluídas nas coberturas a cada dois anos. É preciso considerar os impactos econômicos e, principalmente, o balanço entre os benefícios propostos e os custos com os quais os consumidores terão que arcar”, diz.

De acordo com ela, os avanços da medicina são bem-vindos, porém, há exploração comercial e falhas competitivas nos mercados de insumos, que criam monopólios na distribuição e pouca base para comparação de preço aliado à qualidade. “Há várias imperfeições que requerem revisão sob pena de o sistema se tornar financeiramente inviável já no médio prazo”, acrescenta.

Visão similar compartilha Marcio Coriolano, presidente da Bradesco Saúde e da Mediservice. “Há inclusões demasiadas no Rol, é preciso ter um método de avaliação explícito de custo e benefício para a incorporação de materiais, equipamentos e tecnologia médica. As coberturas podem ser as mais variadas, mas a eficiência terapêutica tem que ser comprovada”, explica.

Outra questão posta por Coriolano é a incoerência das novas coberturas e procedimentos contemplarem contratos antigos ou vigentes. “Isso contraria qualquer norma razoável securitária, pois o preço estabelecido no contrato foi baseado em uma experiência estatística e atuarial daquele momento; precificado a partir das coberturas vigentes à época”, expõe.

E, ainda, “é preciso fazer escolhas e ter um Rol de procedimentos do tamanho adequado ao bolso do brasileiro, tem que haver uma forma de coibir uma série de desperdícios que há no sistema, é preciso ter vontade política, e nós temos visto que o atual ministro da Saúde (Ricardo Barros) tem uma visão mais arejada em relação a isso”, comenta Coriolano.

Equilíbrio financeiro
Em nome da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), Pedro Ramos informa que a entidade é a favor do desenvolvimento de novas tecnologias médicas, mas pondera que o impacto de novos procedimentos, medicamentos e terapias nas coberturas tem pressionado o equilíbrio financeiro das operadoras.

“No último ano, as operadoras apresentaram uma margem operacional média de apenas 0,6% e, caso continue o recrudescimento da conjuntura econômica do setor, poderá recuar ainda mais”, alerta.

O diretor da entidade também comenta sobre os impactos do novo Rol nos planos vigentes. “As operadoras somente podem repor em parte os novos custos para os atuais beneficiários contratantes de planos de saúde individuais/familiares, apenas um ano e meio após a implantação das coberturas do Rol obrigatório. Impacto que também encarece o acesso de novos beneficiários aos planos de saúde, tendo em vista a necessidade de suprir custos gerados por tais incorporações”, diz.

“As incorporações no Rol podem acarretar custos adicionais às operadoras, que viram um aumento de 129% na despesa assistencial per capita entre 2007 e 2015, segundo a FenaSaúde”, pontua Maurício Lopes, vice-presidente de Saúde e Odonto da SulAmérica.

Para André Rosas, diretor superintendente Comercial/Empresarial do Hapvida, “o setor da saúde, felizmente, passa por constante processo de aprimoramento. Nós confi amos nas determinações da ANS e acreditamos que as normativas visam qualificar a saúde privada do Brasil”, expõe.

Cícero Barreto, diretor Comercial e de Marketing do Grupo Omint, acrescenta que além de novos equipamentos, medicamentos e procedimentos pressionarem os preços, outro fator é o aumento do uso dos planos. “Com o receio de perder o emprego e também os benefícios, os usuários passam a usar mais os planos e isso é uma fonte de custos importante que temos que monitorar com muita atenção”, alerta.

Diretor Administrativo Financeiro do Grupo Plena Saúde, Roberto Ranieri Sobrinho diz que nesta última atualização houve o incremento de implantes e medicações de alto custo que deverão ganhar relevância na sinistralidade nos próximos meses. “E, consequentemente nos reajustes dos planos coletivo por adesão e empresariais. Acreditamos que o impacto deverá girar em torno de três pontos percentuais na sinistralidade”, prevê.

Já Francisco Bruno, consultor sênior da Mercer Marsh Benefícios, faz uma previsão sobre a inflação médica para este ano. “Ela deve ficar em torno de 18% a 20% em relação a 2015. Ou seja, de 10 a 12 pontos percentuais acima da inflação de preços estimada para o período”, analisa, complementando que há fatores na composição da inflação médica que não estão sob o controle das empresas.

“Como por exemplo, novos procedimentos que surgem, valorização do dólar, que afeta diretamente o preço de materiais e medicamentos utilizados nas internações, além das demissões que trazem um acréscimo na utilização do plano por aqueles que são demitidos e também para os que permanecem na empresa”, cita.

Ele diz que resta às empresas uma análise profunda do modelo de benefício. “Visando definir posicionamento em relação ao mercado e aos competidores e, acima de tudo, redesenhar seus planos e implementar mecanismos de controle da utilização e de compartilhamento de responsabilidades com os colaboradores, além de desenvolver programas de gestão de saúde e qualidade de vida”, sugere.

Impactos e compensações
Segundo dados da FenaSaúde, entre junho de 2015 e o mesmo mês desse ano, a perda de vínculos foi de 1,6 milhão de consumidores de planos de saúde, sendo que na saúde suplementar, cerca de 60% dos beneficiários são de seguros e planos coletivos empresariais.

“Para cada demissão há perda de prêmio, mas as indenizações e os sinistros que cada uma das vidas canceladas eventualmente teve continuam a pingar para a seguradora, podendo levar entre 60, 90 dias, entre o aviso da despesa médica e o pagamento. Processo que tem o nome técnico de run-off, com efeito imediato de elevação de sinistralidade para todo o mercado”, informa Coriolano.

O executivo diz que o segundo ponto é que as pessoas que estão em aviso-prévio ou que fizeram acordo com a empresa para permanecerem por mais tempo com seus planos de saúde, tendem a usá-los mais. “O terceiro ponto é que o setor de saúde está mais ativo nas indicações clínicas, prescrevendo mais exames, o que pode ser um efeito compensatório pela diminuição do movimento”, acrescenta.

Mesmo nesse cenário, Coriolano diz que a Bradesco Saúde tem compensado a perda de beneficiários. “Nós tivemos perdas de segurados por causa do desemprego, mas ela foi quase compensada com o nosso crescimento no segmento de pequenas e médias empresas”, afirma, comentando que no primeiro trimestre a companhia cresceu 32,5% somente neste segmento.

Na Amil, Erwin Kleuser também fala sobre crescimento. “Nós temos conseguido atrair e reter clientes, principalmente entre pequenas e médias empresas. No primeiro semestre deste ano, a operadora adicionou 500 mil beneficiários à sua carteira. Esse resultado pode ser atribuído ao investimento em inovação de produtos”, especifica.

No Grupo Omint, Barreto destaca o tempo de permanência dos clientes, segundo ele, um dos maiores do mercado. “Eles permanecem em nossa carteira, em média, por oito anos. Isso porque apostamos em relações de longo prazo, investimos em qualidade, na eficiência e no atendimento diferenciado para o público que ainda não está completamente assistido no Brasil”, pontua.

Em números, ele conta que a Omint terminou 2015 com um faturamento de R$ 1,179 bilhão, valor 21% maior que o ano anterior. “Esperamos seguir crescendo em 2016, reforçando a posição de liderança da Omint no mercado brasileiro de planos de saúde para o segmento de alto padrão”, acrescenta.

Na SulAmérica, Lopes informa que “por meio da estratégia de gestão de saúde e bem-estar, acreditamos que temos conseguido contribuir com o equilíbrio de custos e com a melhoria de indicadores relevantes nas empresas clientes, como produtividade e absenteísmo, por exemplo. De modo geral, as empresas clientes da SulAmérica têm mantido os benefícios aos funcionários”, revela.

E, ainda, “acompanhamos com atenção o atual cenário, mantendo a convicção do grande potencial do segmento de planos de saúde e odontológicos, e nossos resultados nos últimos anos corroboram essa visão, assim como o fato de que somente 25% da população brasileira têm seguro de saúde e 11% estão cobertos pelo odontológico, segundo a ANS”, especifica.

No Hapvida, Rosas conta que em 2015 o crescimento foi de 10,9% em medicina e de 18,8% em odontologia e que o Hapvida foi uma das operadoras mais bem avaliadas pela ANS, atingiu nota máxima (1,00000) em atenção à saúde, segundo o Índice de Desempenho da Saúde Suplementar (IDSS).

Motivo que ele atribui à alta eficiência, escala e constante promoção da saúde, e não apenas gestão de doenças. “O que fez com que o Hapvida apresentasse umas das notas mais altas em qualidade reconhecidas pelo mercado, aliado a um custo mais assertivo que é acessível ao budgeted das empresas”, afirma.

Para Sobrinho, do Grupo Plena Saúde, a crise também traz oportunidades. “Faz parte do DNA do grupo oferecer alternativas, tanto para empresas como para associações ou pessoas físicas que buscam um produto que consiga conciliar um custo acessível a uma rede credenciada honesta. Desse modo, a crise tem sido um campo fértil e cheio de oportunidades”, analisa.

Mudanças necessárias
Diretor da Abramge, Pedro Ramos explica que a pressão sobre a saúde suplementar exige que as operadoras adequem-se às novas realidades em prol da sustentabilidade de seu negócio. “Por manterem hospitais, clínicas e prestadores de serviços próprios, as medicinas de grupo conseguem conter os custos administrativos e operacionais dos planos de saúde. Prova deste esforço é que desde 2008 as empresas do setor de saúde suplementar conseguiram reduzir essas despesas em 30%”.

Erwin Kleuser, da Amil, diz que é preciso haver mudança do modelo assistencial, com a promoção da saúde e a prevenção de doenças como prioridades. “Assim, as operadoras poderão contribuir ainda mais para melhorar a qualidade de vida e incentivar mudanças de hábito, reduzindo a incidência de doenças e os custos com assistência médica”, avalia.

E também que é preciso avançar nas discussões sobre o modelo de pagamento aos prestadores de serviços assistenciais, que hoje estimula o volume de pedidos médicos, em vez do resultado clínico. “Inclusive, esse é tema de grupos técnicos da ANS, dos quais a Amil participa”.

“Há questões que se não forem endereçadas corretamente poderão levar a saúde suplementar para a lona. São vários aspectos, porém destaco dois: uma nova legislação que permita às empresas continuarem investindo nos planos de saúde que oferecem aos seus colaboradores e o segundo é a comunicação aos beneficiários”, afirma Francisco Bruno, da Mercer Marsh Benefícios.

Ele cita que basta ver o montante gasto na saúde suplementar em 2015 (acima de R$ 100 bilhões) dos quais 80% referem-se aos planos corporativos, nos quais as empresas subsidiam perto de 78%, em média. “Mesmo com todo esse investimento, as empresas não conseguem se representar nos fóruns onde o assunto é discutido”, lamenta.

Sobre os beneficiários, “em geral, os que utilizam o plano de saúde não valorizam adequadamente o benefício, exercendo apenas o papel de usuários e não de parceiros da empresa, como deveriam, esquecendo que o recurso por ela colocado é finito”.

Para Roberto Ranieri Sobrinho, do Grupo Plena Saúde, falta ao mercado honestidade, transparência e cooperação. “A guerra prestador versus operadora já se mostrou insustentável, tanto que players de todos os portes estão tendo que se reinventar. Meu sonho é ver uma cadeia produtiva em que todos os elos possam crescer e ter resultados, ao contrário do que vemos hoje, onde alguns se destacam, enquanto outros ficam fragilizados”, diz.

Solange Beatriz Palheiro Mendes, da FenaSaúde, defende a necessidade de revisão de valores e de políticas. “A prioridade é propor soluções que mudem o eixo comercial da cadeia de valor da saúde e a incorporação de tecnologias, a fim de assegurar a sustentabilidade do sistema, sem prejuízo à qualidade de atendimento daqueles que já são atendidos por ele”.

E uma delas apontadas pelas associadas da entidade refere-se ao modelo de remuneração dos prestadores de serviço. “Hoje, vigora um formato que estimula o desperdício, ganha-se por quantidade de procedimentos realizados, é preciso priorizar resultados clínicos”, afirma.

A mesma linha segue Maurício Lopes, da SulAmérica. “Há oportunidades de construir um mercado mais sustentável, se todos estiverem alinhados na mesma direção. É preciso mudar o modelo de pagamento aos prestadores de serviço médico, com ênfase em performance, e empoderar o consumidor para que ele possa ser responsável pela gestão de sua saúde e custos são essenciais”, defende.

Pedro Ramos destaca que a Abramge, em parceria com a FenaSaúde e o Instituto de Estudo de Saúde Suplementar (IESS), estão avaliando, juntamente com uma consultoria internacional, o início de um projeto piloto de um novo modelo de remuneração para a cadeia de prestadores do setor de saúde suplementar no Brasil.

Para finalizar, Solange Beatriz fala sobre planos individuais e a necessidade de mais flexibilidade na regulação de seus reajustes. “Tornando-os novamente atrativos para que as operadoras redescubram o potencial deste segmento”, destaca, acrescentando que “há também muito espaço para se corrigir as distorções econômico-financeiras, a partir da gestão eficiente. Como se vê, tudo está encadeado e não há solução única”.

Variáveis da inflação médica
De forma geral, o crescimento dos custos médicos acima da inflação de preços se dá devido a variáveis que, em alguns casos, estão fora do controle das empresas, como por exemplo:

- Aumento da expectativa de vida das pessoas;
- Surgimento de novas doenças e o avanço da medicina para enfrentá-las;
- Inclusão de novos procedimentos (a cada dois anos) ao Rol mínimo determinado pela ANS;
- Custo sempre crescente dos medicamentos e materiais cirúrgicos;
- Negociações das operadoras de planos de saúde com hospitais, clínicas e laboratórios, às quais a empresa compradora de serviços não tem acesso,
- Movimentos da classe médica por melhores condições de remuneração, igualmente sem a participação das empresas neste processo.
(Fonte: Mercer Marsh Benefícios)

 

 

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